94. Owen, a melhor pessoa nascida numa sexta 13

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Saí do hospital com os olhos marejados. Eu não conseguia acreditar no que ouvira no consultório. Uma semana antes, eu voltava para casa do trabalho quando, de uma forma assustadoramente bizarra, consegui bater os dedos do pé em uma quina de calçada. O ‘chute’ sem querer trouxe consequências que eu gostaria de esquecer.

– “Consulta de retorno, né? Você já está há uma semana em casa com o dedo imobilizado, vamos ver seu pé!”, disse, animada, a médica, que podia muito bem estar num filme de tão longe do estereótipo que era.

Ela tirou as fitas no meu dedo com uma tesoura e começou a apertar várias partes dele para ver se a dor, que me impossibilitou de colocar o pé no chão durante dias, tinha passado.

“Eu senti uma melhora nos últimos dois di…AAAAAAAH, DOEU MUITO”, eu gritei.

O médico com quem eu havia passado anteriormente me pediu um raio-x, mas no exame não saiu fratura nenhuma, apesar do meu dedinho do pé ter ficado todo preto e cheio de hematomas horríveis. Ele desconfiou de uma fratura oculta. A nova médica também. E, nesta sexta-feira 13, lá fui eu de novo para a sala de raio-x.

– “Bom, eu consigo ver algo diferente aqui onde você mostrou que está doendo”, disse ela observando atentamente as placas pretas do exame.

– “Quanto tempo?”, eu brinquei, crente de que não, eu não ficaria mais tanto tempo de molho.

“Quatro a seis…”, ela começou. Antes mesmo de esperar que completasse a frase, suspirei aliviada. Quatro a seis dias? Poxa, que bom que era só isso. “Quatro a seis semanas”, ela completou.

E meu mundou caiu. Eu não aguentava mais ficar em casa, não aguentava mais trabalhar de pijama, não aguentava mais jogar Mario Kart nos intervalos dos compromissos, não aguentava mais ver os programas da tarde. Eu tinha planos antes disso tudo acontecer: queria entrar na aula de boxe e na aula de hip hop, escrever do parque aos domingos, aprender a brincar direito no meu slackline…

Peguei meu laudo médico, meu novo atestado e fui para casa desacreditada. Não fiz questão de segurar o choro no elevador. “Não é drama, é chateação”, pensei, olhando para a câmera imaginando a cara do porteiro ao me ver desmanchando. É que quando a vida começou a ficar incrivelmente legal, uma quina de calçada apareceu no meu caminho.

Abri meu Facebook pronta para reclamar. Afinal, por que não reclamar da sexta-feira 13? Foi quando vi a mensagem do Owen na timeline:

“Nasci numa sexta-feira 13. Minha mãe sempre me disse que nascer numa sexta-feira 13 significa sorte para a pessoa que nasce. Eu sempre pensei que ela estava inventando, tipo quando mães insistem que você é talentoso ou bonitão, etc. Mas parece que é verdade!”.

Com o texto, o Owen compartilhou um site que explicava que, em várias culturas, nascer numa sexta 13 é sinônimo de sorte. Eu até tentei ler o link publicado, mas me perdi no caminho. Meus pensamentos voltaram para lá longe, quando conheci o Owen.

É doido. Eu conheci o Owen um ano antes de ele me conhecer. Antes de embarcar para a Califórnia, fiz uma pesquisa enorme sobre intercâmbio. E quando decidi me inscrever no curso de línguas da EF, naveguei por horas no YouTube para achar vídeos de pessoas que estavam lá, que pudessem me dar uma noção mais visual da coisa. Encontrei esse e, de cara, me apaixonei pela pessoa que Owen era. Contei os dias para chegar na cidade e conhecê-lo. E, de novo, meu feeling não falhou: ele era, realmente incrível.

O Owen nasceu em Kingston, na Jamaica, e foi morar na Califórnia quando ainda era um moleque. Se apaixonou, com o tempo, por violão e, eu acho, que o violão também se apaixonou por ele. Owen virou professor de inglês para complementar a renda, mas nem parecia que esse era um trabalho ‘extra’ dele – nem que ele passava madrugadas e mais madrugadas cantando e tocando nos bares da cidade. Nos dias seguintes as apresentações, lá estava ele: o primeiro a chegar na sala, com o violão na mão, pronto para usar o instrumento para melhorar qualquer situação (até mesmo as de ressaca intensa que a gente tinha).

Bonito, gentil, simpático e talentoso, o Owen era o mais popular da escola. Vivia rodeado de alunos, até mesmo quando nem estava na sala de aula. Era visto jogando ping-pong com a galera, batendo papo com as meninas da recepção, treinando músicas no lobby e desviando de várias tentativas frustradas de garotas de 18 anos de ‘chegar mais perto’. Owen tinha tudo o que uma pessoa bonita por dentro e por fora tinha, e isso atraia muita gente, mas ele tinha também um par romântico, que compartilhava de tudo com ele. As fotos de Owen com a esposa eram lindas!

Dias antes de eu ir embora, consegui me aproximar do Owen sem muita gente interrompendo. E aí, como essas menininhas fãzinhas todas, eu engasguei. Eu queria ter dito o quanto eu desejava que ele tivesse o maior sucesso do mundo na música – e o quanto ele fosse o cara mais feliz do mundo, mas não consegui. Ao invés disso, perguntei um “qual é mesmo o nome da sua banda?”.

Eu nem precisava ter perguntando aquilo. Eu já sabia. Assim como já tinha decorado, também, a letra de uma das minhas músicas favoritas escritas por ele – essa! Também nem precisava desejar coisas boas colocando palavras para fora. Hoje, o Owen vive do sonho dele. Viaja os Estados Unidos todo apresentando o que gosta. E não há sexta-feira 13 que o tenha atrapalhado. Quanto ao meu dedo… Acho que terei mais tempo para escrever aqui, viu?

93. Dona Elza, a que quebrou a minha cozinha

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Demorou muito tempo para o quesito “lar doce lar” começar a dominar a minha vida. Aos 13 anos, a minha preocupação número 1 relacionada ao assunto era se, depois de eu passar o dia inteiro brincando com as minhas amiguinhas na rua, minha mãe me faria entrar e enxugar aquela pia enorme de louças que ela insistia em usar todos os dias. Eu pensava: como é que uma mulher consegue sujar tanta coisa assim só para fazer um arrozinho, um feijão e umas batatas fritas?

Conforme fui crescendo, eu me afastei ainda mais dessas atividades domésticas. Eu estava muito ocupada com a faculdade, com o emprego e com o tremendo trânsito na volta para casa para me atentar se a pia estava ou não vazia, ou se o papel higiênico estava ou não prestes a terminar.

Minha primeira inconveniência “das grandes” na cozinha foi aos 21 anos: fui fazer brigadeiro para a minha host-mom na Califórnia enquanto passava o meu semestre fora, me distrai por menos de dois minutos e, quando me dei conta, havia queimado (mesmo!) a panela de inox perfeitinha da moça. Até tentei jogar meu charme para não ter que arcar com o valor daquele item (afinal, na casa dela eu até lavava as louças, e lavar as louças não estava no contrato de acomodação), mas não consegui. Ao deixar a casa antes de voltar para o Brasil, tive que desembolsar quase 40 dólares para que ela comprasse uma panela nova.

Era janeiro de 2012 quando sai da casa dos meus pais – e aquele seria o início de muita tensão na minha (recém) vida de gente grande cuidando de uma casa. O primeiro grande problema foi o entupimento da pia da cozinha do apê 51. Lembro da cena como se fosse hoje: eu, sozinha em casa na noite-véspera de um feriado gigante, com a pia toda suja e com a água parada. Pensei no fedor e na possibilidade de mosquitos da dengue se proliferarem caso eu não fizesse algo até o fim do feriado e desembolsei 600 conto pra consertar uma caca que nem minha era.

– “Isso aqui não é desentupido há uns 20 anos, moça”, afirmou, na ocasião, o rapaz que foi prestar o serviço.

Eis que entre muitos outros entupimentos, garrafas de refrigerante estouradas na cozinha e máquinas de lavar com mangueiras que estouravam e molhavam tudo, eu me deparei com ela, a dona Elza. A dona Elza era mais uma das várias velhinhas que moram no meu prédio, mas era também, a síndica dele. Era baixinha, tinha os cabelos todos branquinhos e andava encurvadinha. Falava baixinho, rouco. Apesar de tentar, nunca a consegui fazer sorrir – nem antes, nem depois do “pequeno” incidente que nos perturbou por alguns meses.

Abre parênteses.

Se eu pudesse ter uma conversa prévia com as próximas pessoas que vão cruzar a minha vida, eu acho que eu avisaria: cuidado, eu gosto de ter controle de tudo! Eu sou uma controladora nata. Se eu deixo algo sair do meu controle, é porque eu realmente já não ligo mais para aquilo. Por causa disso, já ouvi, não só uma, nem duas vezes que sou muito “sargentão”.

Fecha parênteses.

Foi por isso que eu não gostei nada de chegar em casa e ver parte da minha cozinha quebrada.

Naquela manhã, o porteiro havia me parado na saída do prédio, quando eu ia, atrasada como sempre, para o trabalho, e dito que precisariam entrar no meu apartamento durante o dia. Por esse motivo, eu teria que deixar a chave.

– “O encanador vai vir aqui hoje para ver o que está acontecendo. Está vazando algo nos apês de cima e o apartamento debaixo do seu, por exemplo, está todo destruído. A moça vai ter que pintar toda a parede da área de serviço dela”, disse ele.

Eu odeio deixar a chave na portaria. Não que eu suspeite de alguém especificamente, mas como já disse: saiu do meu controle? Só quando eu não me importo. E eu me importo (e muito) com a minha casa. Contrariada, então, coloquei minha chave na gavetinha da portaria.

Trabalhei feliz o dia inteiro.

Quando voltei para casa e abri a porta, surpresa! Chão sujo de pés, pedrinhas espalhadas por tudo quanto é canto e um buraco enorme na parede da cozinha. Liguei possessa para a portaria. Como assim minha parede está quebrada? Como assim ninguém me consultou? Como assim vocês se acham no direito de fazer o que for sem antes nem me telefonar? A resposta do porteiro foi só uma: “por favor, Aline, não foi nossa decisão, foi decisão da síndica”. Eu sentei e por pouco não desmoronei em lágrimas. O apartamento não é meu. O proprietário ficaria maluco. Eu não dei autorização para aquilo. Que merda! Por que as pessoas não se comunicam? E daí resolvi: eu ligaria para a imobiliária resolver o pepino.

– “Como assim quebraram a parede da cozinha? Você autorizou?”, perguntou a moça do outro lado da linha.

– “Não. Deixei a chave para que eles vissem se tinha algum problema e quando voltei tinha um buraco enorme. E a síndica quer cobrar 900 reais pelo trabalhinho”, avisei.

– “O proprietário vai enlouquecer. Não pode fazer essas coisas. Me manda um e-mail com todas as informações que vou resolver isso agora”, ela disse.

A moça da imobiliária pegou também o telefone da síndica para resolver a situação. A conversa que se teve foi a mesma que eu teria: que maluquice é essa de sair quebrando o apartamento dos outros sem nem perguntar se pode antes? Nos dias seguintes, tive que aturar o buraco na cozinha (eles não conseguiam arranjar um ajulejo igual para tapá-lo), o entra e sai da seguradora (sorte que o proprietário tinha!) e a cara de brava da dona Elza toda vez que me via.

O tempo passou – e a dona Elza deixou o cargo de síndica. Fui encontrando com ela raríssimas vezes.

Esses dias, grudado na parede do elevador, vi um papel sulfite com dizeres diferentes dos de sempre. Não era o típico “o boleto do condomínio encontra-se na portaria”. Era uma notícia: dona Elza havia falecido.

Esses dias também tive que soltar os cachorros no Pão de Açúcar porque os entregadores me trouxeram tomates esmagados e garrafa de água estourada. E tive que usar toda a minha força (nenhuma, peso só 44kg) para consertar o varal, que caiu com roupa e tudo na areia dos gatos. E tive que tirar mancha do tapete e tentar ressucitar a minha pimenteira. Também lutei para tirar os respingos de óleo do chão da cozinha.

Dona Elza faleceu, infelizmente, mas, paralelamente a isso, eu me dei conta que eu aprendi: vida de dona de casa não é fácil, com ou sem síndica que quebra paredes sem pedir.

92. O cara que mijou no meio da balada

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“Deu tudo errado mais uma vez”, choraminguei, toda sensível, depois de constatar que eu tinha alguns dias de folga pela frente, já que havia dado plantão o Carnaval inteiro, mas não tinha feito nenhum plano para aproveitar bem os dias de descanso. Eu gosto de viajar, nem que seja de São Paulo até Santo André, e tinha pensando em visitar o PETAR, uma reserva em Apiaí, no interior, cheia de cavernas. Acabei distraída com outros compromissos e deixei tudo para a última hora.

“O jeito vai ser ficar aqui e zerar o Mario Kart, ou ler os livros do Jonathan Frazen que estão apodrecendo na minha estante”, conclui.

Ando extremamente viciada em algumas coisas – mais especificamente no meu Wii U. Comprei há pouco mais de um mês, depois da insistência pesada do meu boy nerdinho. “O XBox não foi feito pra o tipo de jogadora que você é”, disse ele, referindo-se ao videogame que eu tinha. “Você vai adorar o Wii U. Vai ficar muito tempo jogando”, completou. Eu não acreditei, mas assim que o jogo chegou em casa, minha vida mudou. Funciona basicamente assim: eu tenho um zilhão e meio de coisas para fazer todos os dias, mas não faço nada, absolutamente nada, além de jogar. A parte boa disso é: Estou com vários pontos na competição online do Mario Kart, já tenho vários carros novos e sempre chego nos primeiros lugares. E a parte péssima disso é: todo o resto. Eu deixei de lado os planos de ler 3 livros por mês, esqueço de fazer as compras de comida, já não assisto mais televisão e seriados…

… Enfim, é grave!

Além de usar dois dos quatro dias para me dedicar a alguns projetos paralelos, joguei. Joguei com alma. Joguei com coração. Ganhei tudo o que era possível ganhar. Não me via fazendo nada além daquilo nos dias de folga, até que… Enjoei!

– “Acho que ficar de pijama o dia todo não está me fazendo bem. Preciso sair de casa”, pensei, apesar da preguiça intensa.

O programa do sábado foi a festa do Ano Novo Chinês na Liberdade, em São Paulo. O combinado era dar uma passeada (também conhecida como pegar um sol nas perna tudo), petiscar (yammy, yammy, tempurá!) e ver algumas lojinhas (alô, você que curte papelaria, vá já para a Liberdade!).

Comi, vi o que tinha pra ver e, sob um calor desgraçado de uns 33 graus, me deu um clique:

– “Aqui é tão legal, néam? Por que não voltar mais à noite pra um karaokêzinho esperto?”

Voltei.

Mais tarde, lá estávamos eu e alguns amigos na Chopperia Liberdade, um tradicional karaokê da região. Era isso: naquela noite, soltaríamos a voz naquele lugar breguinha porém incrível. Cantaríamos todas as músicas clichê que um karaokê merece. Eu apostaria no Raça Negra, no Molejão, no Rouge e no Justin Bieber. Meus amigos cantariam também suas canções favoritas para passar vergonha (e/ou ser aplaudido pela multidão).

Ou era o que eu pensava que faríamos.

Fizemos tudo, mas não cantamos no palquinho. E mais: de repente, o rolê começou a ficar muito deprê. Quem cantava, cantava músicas tristes, tipo essa e essa. Além disso, havia um casal que subia ao palco o tempo todo para…  Cantar bem. Poxa, nunca achei que karaokê fosse lugar de gente que canta bem.

Era cedo, mas era hora de ir embora.

Aparecemos então na festa de aniversário de uma outra amiga numa balada chamada Trash 80’s, no centro da capital. Quando eu morava no meu antigo bairro, meus amigos sempre combinavam de vir para o centro especificamente para ir nessa balada. Nunca gostei. Adoraria se a balada fosse mais pra Trash 90’s. Não acho divertido cantar Xuxa na balada. Sou mais o Tchan. Mas fui mesmo assim.

Chegamos já alterados (eu tinha bebido a tarde toda, por exemplo) e fomos quase que instantaneamente para a pista de dança. Tocava alguma música de seriado antigo quando eu conheci o mijão da balada.

Eu dançava animada, sem prestar atenção em muita coisa, quando vi o chão molhado e uma espécie de mini-coro de ‘ow!’. Olhei para o lado e lá estava ele, o cara que tirou o pau pra fora e mijou no meio da balada. E pior: mijou bem em direção à uma amiga. Ela diz ter sentido o “quentinho” do mijo escorrendo pelas pernas.

O mijão da balada era gordinho, parecia um dos 7 anões (só que alto), vestia branco da paz e se fingiu de vítima. Deveria pensar: ‘Ai, galera, nem fui eu, parem de me olhar, procurem o verdadeiro culpado’. Quando consegui, finalmente, processar a informação (é, não é fácil acreditar que um cara resolveu, do nada, mijar no meio de uma balada), era tarde demais: ele já tinha ido pra algum outro lugar se esconder. O que eu pensei, possessa, foi:

GATO. VOCÊ. TÁ. FODIDO. AGORA. SEU. FILHO. DUMA. PUTA.

No geral, sou muito fofa com pessoas mal educadas. Apesar de ficar puta da vida com quem não tem senso comum, eu tento não deixar isso tão explícito porque, nem precisa dizer, sou pequena, magra e se alguém quiser me encher de porrada, é superfácil. Mas não me aguentei desta vez. Além de ajudar a encontrar o filha-duma-puta-mijão e indicá-lo para os seguranças da balada (que não fizeram nada, que vergonha!), resolvi atormentar parte da noite dele.

Peço desculpas por antecipação. Não sou a favor de justiça com as próprias mãos, mas aqui julguei necessário. Comecei a tentar encontrá-lo na balada. Esperei ele ficar de costas e, delicadamente, deixei cair um copo de caipirinha de frutas vermelhas na bermuda branca dele. Tipo: com gelo e tudo. Ele pareceu não notar. Daí resolvi deixar que, oops, uma cerveja caísse nele também. Mais uma vez, ele pareceu não se incomodar.

Desisti momentaneamente. Valia a pena perseguir um idiota desses por muito tempo?

Acho que não.

Quer dizer: ACHO QUE SIM.

Me diverti loucamente na festa (não faço a menor ideia quais eram aquelas músicas tocando), mas também o observei bastante e esperei ansiosamente até a hora de ir embora. Antes de pagar a minha comanda, resolvi falar com o cara que mijou no meio da balada.

Música alta, todo mundo curtindo…

O cutuquei, sorridente. Ele, sorrindo de volta, tentou pegar na minha cintura. Certeza que achou: aí, alguém está me abordando, vou me dar bem! Puxei a orelha dele pra perto para que ele pudesse ouvir o que eu tinha pra dizer sem que o barulho alto atrapalhasse. Ele, calmo, esperou que eu falasse:

“Fala, querido! Tudo bom? Se liga: dá próxima vez, quem vai mijar em você no meio da balada sou eu, te prepara”, eu disse.

Olhei para a cara de choque dele, virei as costas e saí andando. Já tinha cumprido minha missão ali. E não, mijar em alguém sem que essa pessoa peça (existe fetiche pra caramba, né, gente?) não é permitido.

91. Dona Guilhermina, a catadora de lixo de 7 dentes

Em meio a movimentada Avenida Lins de Vasconcelos, uma senhora pilota seu carro. Não é lá uma Mercedes, mas tem seu charme. Não corre tanto quanto uma Ferrari, mas na descida, não há quem o segure. É instrumento essencial para o serviço e quando quebra, é necessário passar a noite consertando.

A senhora caminha por ruas e avenidas do Cambuci enquanto olha, atentamente, os quatro cantos do bairro. Não deixa passar nada em branco e tem que correr. Tem que se adiantar para ser a primeira. O mercado é concorrido e se alguém chega antes e leva embora o que vê, já é um déficit altíssimo que se reflete no fim do mês.

Sua vida resume-se em catar papelões, garrafas, ferros e tudo que possa ser reutilizado. É daí que saem seus quase R$ 160 mensais, que são gastos com cuidado, já que o dinheiro de sua aposentadoria e da pensão de seu marido somam pouco menos de R$ 530.

Dona Guilhermina se destaca na multidão de gente ‘rica’ e bonita. É a única “diferente” ali. Não há tinta que consiga rejuvenescer seus cabelos grisalhos e seus 54 anos já começam complicar sua saúde. “Guigui”, como é carinhosamente chamada pelos que a conhecem, sente dores horríveis nas costas toda noite e só acorda se o despertador der uma ajudinha.

Dona Guigui conhece todo mundo. Dá ‘oi’ aqui, diz ‘tchau’ ali. Anda pra lá e pra cá sem se preocupar com os cães que, furiosos, latem e correm em direção a ela.

É negra, baixinha e tem os cabelos crespos que “nem pente penteia”. Seus únicos sete dentes (quatro em cima, três embaixo) dão a ela, por incrível que pareça, uma expressão alegre e tranquila. Guilhermina, porém, não é esse mar de felicidade. Vive na solidão de sua casa desde a morte de seu marido.

Chamava-se Paulo e foi o grande amor de sua vida. Com ele, teve dois filhos “lindos” e “chiques”. O mais velho, de 31 anos, mora no Japão há sete e desde que se mudou, vem poucas vezes visitá-la. A mais nova casou com um jogador de futebol do interior. Vem uma vez por mês, mas nunca tem tempo para ficar. É muito ocupada.

Sabe-se também que Guigui faz serviços de magia. Segundo ela, uma mulher da rua de cima teria sido “amaldiçoada” por seus feitiços. A história é complicada: Sebastião, marido de Vera – a amaldiçoada, saía com Cidinha, que era a melhor amiga de Guilhermina. Cidinha amava Sebastião, que não queria assumi-la para não ter problemas em casa. Mas Guigui não é má senhora, não, viu! Só deu uma ajudinha para a comadre.

Numa dessas noites, Dona Guilhermina, que acabara de jogar conversar fora com uma vizinha, entrou pra casa dizendo que tomaria um café e logo depois lavaria toda a roupa. Passou um dia e nada. Dois e nada.

Agora, Dona Guilhermina só existe mesmo no cemitério da Vila Formosa. A encontraram jogada no chão da cozinha dias desses, cinco dias após a sua morte. Seu rosto já não era o mesmo. Estava completamente deformado. Os insetos e bichos se encarregaram de fazer um servicinho ali. E foi tudo assim, vapt-vupt, igual o correr de seu carrinho nas ruas do Cambuci.

90. Hilda, que só não perdeu a cabeça no Ano Novo

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Eu me lembro de me sentir exatamente como a Hilda. É que, um tempo atrás, eu, vestida extremamente normal se comparada a imensa fila de “wannabe hipsters” que se aglomerava em frente ao – falecido – Estúdio Emme, point moderninho em Pinheiros, aqui em São Paulo, aprendi que deveria começar a confiar mais no meu instinto, além de, é claro, prestar mais atenção nas coisas que estão ao meu redor.

Era noite de sábado, show da dupla Pepê e Neném, famosa da década de 90 pelo sucesso “Mania de Você”, e eu lutava contra a minha preguiça para levar uma vida social um pouco mais parecida com a dos meus amigos. Eu sempre morei na periferia e, para chegar ao centro, demorava, no mínimo, umas duas horas e meia. A minha adolescência foi toda sem metrô. Eram horas e mais horas dentro de ônibus lotados e cheios de ninhos de baratas.

Antes de resolver mudar sozinha para a Selva de Pedra, em 2012, eu pouco vinha para esses cantos em dias de descanso – leia-se “sábados, domingos e feriados”.

“Festa hoje na Outs. Veeeem”, me enviava uma amiga do trabalho. “Baladinha no Vegas, vamos?”, insistia a mesma amiga em outro fim de semana. “Vamos na D-Edge? Ou no Glória?”, continou a enviar até que percebeu que não, eu não perderia quase um final de semana inteiro só para ir e voltar de um lugar.

Assim que me mudei, resolvi dar uma nova chance a vida social noturna. E o fatídico sábado era só uma prova de que, apesar de não me sentir pertencente a esta cidade, eu queria fazer dar certo. Passei então pela longa fila de jovens vestidos com camisetas e vestidos de bolinhas (para os que gostam de termos mais da moda: poás) e calças skinny. Já tinha tomado uma ou duas cervejas em casa e, por isso, pensei que as várias tatuagens daqueles diamantes (acho horrorosas, sorry, minha opinião!) era só uma multiplicação da minha trililice*. Mas não era, claro. Era a moda do momento.

Depois de falar com a hostess, que ao invés de incentivar a entrada estampando um sorriso no rosto (afinal, esse rolê custava R$ 40), parecia rezar para que a noite acabasse, consegui meu lugar ao sol. Estava lá. Estava no point da galera moderninha da cidade. Estava lá pegando uma cerveja, depois estava lá na fila do banheiro e depois, mais uma vez, pegando outra gelada. Assim que segurei a Heineken nas mãos, ouvi meio de longe o “na na na na na na na na na na”, da música “Nada Me Faz Esquecer”. Dei um gritinho, corri para a frente do palco e, lá, dei de cara com um amigo, desses que a gente vê uma vez na vida, outra na morte. Demos um desses abraços demorados e ele pediu uma selfie.

– “Uma foto? Claro!”, eu disse, mesmo estando extremamente suada e sabendo que, naquela mesma hora, eu derretendo seria publicada no Insta, no Facebook e no Twitter dele. “Foda-se”, eu pensei. Não dá pra sair bonita em toda foto.

Virei para a câmera dele, com a minha bolsa pra trás por 10 segundos e, pronto!, foi o suficiente. Coloquei a mão na bolsa, constatei que o celular não estava mais lá e me senti destruindo aos poucos.

Não, você não está mais com o celular na bolsa. Sim, você perdeu seu smartphone. Você perdeu mais de R$ 1000 num rolê que, se pá, você nem queria ir tanto assim.

É uma dor difícil de explicar.

É choque com tapa de realidade.

Pernas trêmulas.

Pernas tão trêmulas como num dia de sol e de bebedeira.

Era um dos dias mais quentes do verão de 2014 em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, para onde eu viajei para passar o Ano Novo com alguns amigos. Meu namorado, que adora natureza, trilha e chinelinho, sugeriu:

– “Tem uma praia aqui perto que chama Praia do Cedro. Tem uma trilhinha de uns 10 ou 15 minutos para chegar, mas é tranquila, vamos?”, disse, animadão.

Eu gosto de trilha e gosto de chinelinho, mas eu não sei bem se trilha combina com viagem tranquilinha de Ano Novo. Como era nosso primeiro dia viajando em grupo, eu topei. Com uma condição: que a gente levasse o cooler carregado de cervejas para matar a sede no calor escaldante do lugar. Bebida na praia custa um valor absurdo.

Mal chegamos nos arredores da praia e eu já tive que tirar a roupa. Que calor! A Praia do Cedro é linda. Uma das mais tranquilas da região. Nem o mar faz tanta onda, de tão de boas que o lugar é.

“Pimba! Natureza maravilhosa, sempre nos brindando com exatamente o que a gente precisa. Pimba! Essa praia tranquilinha na hora certa! Pimba! Trabalhei o ano inteiro igual uma condenada, eu mereço esse dia maravilhoso! Pimba, pimba, pimba!”, eu repetia, na minha cabeça, a cada 5 segundos.

Como eu já devo ter citado algumas vezes durante esse post, o calor realmente não era algo normal. “Aquecimento global, certeza!”, eu brincava. Calor pedia refresco. E eu fui me refrescando. Uma, duas, três, quatro cervejas. Mentira: foram 7 cervejas no total. E nada de almoço. Só uma batata mini que pedi na barraca do Bruno (depois conto essa história!).

Depois de duas ou três horas na praia, as pessoas do grupo pareciam no mesmo grau de bebedeira, algumas mais controlados. Mas eu, eu estava praticamente tropeçando nos galhos na trilha de volta para o carro. Até que vi uma bolsinha preta de câmera no chão e parei.

Bêbado quer tocar em tudo. Gente alterada não anda com a mão no bolso.

Abri a bolsinha e lá estavam: o smartphone, a identidade, os cartões de crédito e débito e uma nota de R$ 50. Ela, a Hilda, provavelmente pensava em beber uma coisinha aqui, outra ali na praia, igual a nós, mas perdeu “tudo” (menos a cabeça!) no caminho para a curtição de fim de ano.

Hilda tinha 56 anos, cabelo preto estilo Joãozinho e era de São Paulo. Não consegui focar no nome dos pais dela, o que me fez me sentir extremamente inútil. Eu adoro saber o nome dos pais das pessoas. Acho a combinação (ou não!) de nomes nas famílias uma coisa tão espirituosa (ou, de novo, não!).

Analisei bem para o celular da Hilda e percebi: aquele brinquedinho deveria mesmo ser importante para ela. Provavelmente faria falta pra caramba porque a tela de descanso dela era uma selfie daquelas bem de gente que curte tirar foto até no banheiro.

A bateria estava carregada até o talo, o que, pra mim, que queria encontrá-la para devolver o que tinha achado, era algo bom. “Mais tempo para que ela possa perceber que perdeu o celular”, pensei. Esperei que ela entrasse em contato. E isso aconteceu, uma hora depois. Meu namorado atendeu:

“Oi, quem tá falando?”, disse, confusa, a voz do outro lado da linha.

Ele nem respondeu. Esclareceu que tinha encontrado o celular no chão da praia e que planejava devolver tudo para o dono. Deu o endereço de onde estávamos e combinou de Hilda passar para pegar.

Já escurecia quando Hilda passou para levar seus pertences. Ela veio num carro lotado de amigos e família. Cansada e suada da praia, e de cabelos já meio grisalhos (diferente da foto de identidade), ela só conseguiu agradecer:

“Muito obrigada! Não sabia o que faria se perdesse isso tudo! Que alívio”, disse. E foi embora.

Eu não sou a catadora que encontrou e devolveu R$ 250 mil em Barretos, mas consegui, pelo menos, fazer minha última boa ação antes de 2014 terminar.

* Trililice: estado avançado de animação pós “algumas” bebidinhas.

89. João Pedro, o prodígio que recusou o Google

João no Draft
João Pedro Motta, 18, não mudou muito desde que trocou Governador Valadares, em Minas Gerais, por São Paulo, em 2012: ele ainda é alucinado por fast-food, não dispensa um bom milkshake, adora chocolate e passa longe do buffet das saladas. É doido por super-heróis, troca a balada pelo cinema sem pensar duas vezes e ainda não conseguiu se organizar com horários – ele até tenta, mas dormir cedo não é com ele. Parecido com muitos de sua idade, João se destaca por um fato específico: recusou construir uma carreira de sucesso em empresas como Google e Twitter para abrir seu próprio negócio, o Plaay, um aplicativo de stream de música que tem mais de 1 milhão de visualizações mensais.

Filho de um advogado e de uma professora, João viveu uma infância sem abundâncias, em que a regra principal era “andar na linha”. Foi com o pai, que veio do Nordeste sem dinheiro e teve de vender redes para pagar os estudos, que ele aprendeu a sempre dar valor ao que tinha. “Minha família me criou para valorizar tudo. Nunca fui leitinho com pêra. Nunca tive mesada, por exemplo. Estudei a minha vida toda em escola particular e sempre via meus amiguinhos com os melhores brinquedos, mas eu não tinha dessas coisas”, conta.

João era uma criança hiperativa. Desde cedo, tinha sede por fazer coisas, por estar em movimento. Por isso sua mãe resolveu ocupá-lo de todas as maneiras possíveis: o colocou para fazer muay thai, natação, basquete e futebol. Cada dia da semana, um esporte diferente. Assim, ele voltava para casa cansado e pensava apenas em dormir. Para a família, que via no garoto uma energia quase que inesgotável, aquilo era um alívio.

O pequeno João começou a crescer e a se interessar por outras atividades. Aos 8 anos, teve o seu primeiro contato com um computador, na casa da avó, na qual passou grande parte da vida e onde tinha mais regalias do que o normal. “Tentei entrar no site do Cartoon Network, mas não consegui porque o endereço era complexo. Então entrava no Nick, MundoNick.com.br, para ficar jogando”, diz, ao lembrar do passado.

O primeiro computador em casa veio só dois anos depois. Ele tinha 10 anos e quando viu o pai chegando com uma caixa enorme em casa, não conseguiu conter a alegria. Mas o sorrisão se desfez logo, pois a irmã mais velha dominou o desktop. A liberdade para acessar aquele mundo novo só veio aos 12 anos, quando a família comprou uma segunda máquina. A partir daí, João não parou mais. Era o começo da história de João com o eletrônico. E era o fim da vida social dele.

AOS DOZE ANOS, VOCÊ É UM PRODÍGIO

Assim que teve acesso ao novo computador, João decidiu o que queria da vida: “fazer coisas na internet”. Só ainda não sabia o quê nem como. Fuçando aqui e ali, aprendeu sua primeira linguagem em programação – Delphi. Começou copiando e colando código dos outros e descobrindo, aos poucos, o que cada parte daquilo significava. Também descobriu o Orkut e uma infinidade de bugs que aquela rede social do Google tinha.

“O Orkut tinha uma falha que dava para hackear pessoas, outra que possibilitava você criar recados coloridos. Fui uma das primeiras pessoas que fez esse script de cores no scrap e disponibilizei o código na internet. Isso me deu bastante popularidade naquela época”, conta ele.

A separação dos pais, no mesmo ano, foi um baque que o fez ficar recluso – se afastou dos amigos e mergulhou mais ainda no teclado. “Eu via meus amigos na matinê e comecei a perceber que eles estavam indo para uma vibe errada, de fumar cigarro e tal. Não gostava disso, sempre fui o certinho da mamãe. Comecei a ficar mais em casa enquanto eles saiam”, lembra.

Código aqui, código ali, horas e mais horas na frente do computador e, aos 13 anos, criou o site Web Dicas, que virou, mais tarde, parceiro do Olhar Digital e do portal Uol. Na página, João escrevia artigos completos sobre tecnologia, além de divulgar o que criava. Tudo isso sem revelar a idade: “Nessa época, a minha estratégia era não mostrar quem eu era. Nunca mostrava o rosto, nem no Orkut. Só sabiam meu nome. Na foto tinha só o meu sorriso. Fiz isso porque pensava que ninguém ia ter respeito por um garoto dessa idade”.

Aos 14, mais descobertas, dessa vez no Twitter. “Achei um jeito de ter perfil com sidebar transparente, fiz um código para ganhar seguidores e fiz outro para corrigir um erro de acentuação que impedia que os usuários brasileiros se comunicassem”, conta, orgulhoso. Ele tem mais de 84.000 seguidores no Twitter e em seu perfil usa uma foto dele criança, com camisa e gravata.

Com tantas habilidades quando o assunto era Twitter, João chamou atenção. “A Carol, do Twitter, chegou a me convidar para trabalhar com eles. Ela disse que assim que a filial abrisse no Brasil, ela me chamaria. Ela nem sabia que eu era só um moleque”, conta. Foi a jornalista Rosana Hermann que descobriu a idade de João e o convenceu a se “mostrar”. “Ela disse que era legal eu ser o menino prodígio da programação. Que isso me faria bem, que eu teria mais exposição”, conta. Quando revelou sua idade, quase quebrou a web. Era impressionante um garoto daquela idade ser tão profissional em programação.

AOS DEZESSEIS, RECUSA CONVITES. AOS DEZOITO É UM EMPRESÁRIO

Depois que divulgou ter apenas 14 anos, João foi convidado para participar do Teleton, evento promovido pelo SBT para ajudar as crianças da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), em São Paulo. A vida dele nunca mais foi a mesma. Nos bastidores da emissora, conheceu muita gente de agência, que se interessou pelo seu trabalho e começou a pagar pelos seus serviços de programação. Ainda morando com a mãe em Minas, gastava o dinheiro que ganhava apenas “com McDonald’s e tranqueiras”. Guardava todo o resto no banco. “Ganhava mil reais aqui, dois mil ali e fui juntando. A única coisa que comprei de valor alto nesse tempo foi um iMac, porque era uma coisa que eu queria demais”, afirma.

Em 2012, aos 16 anos, João veio para São Paulo para fazer um freela – e não voltou mais. Foi sendo convidado por marcas como o Bradesco, por exemplo, para prestar consultoria, e estendeu tanto sua estada que decidiu ficar de vez: “A decisão de vir morar em São Paulo não foi programada. Eu tinha um trabalho de um mês para fazer aqui. Aluguei um flat, fiquei, aí surgiu outra coisa, e depois outra, e fui ficando. Morei sozinho nesse tempo. Só comia tranqueira fora. Minha mãe vinha vez ou outra para tirar as coisas vencidas da geladeira e arrumar o caos no apê.”

Nesta época, várias empresas, como o Google e grandes agências de publicidade de São Paulo, convidaram João para fazer parte de suas equipes, mas ele recusou todos os convites. “Nunca quis fazer coisas para as pessoas. Sempre tive prazer em fazer coisas pra mim que, mais tarde, poderiam ser usadas por outras pessoas. Por isso recusei todos os convites”, diz. Ele achava que tinha que se vender como o menino prodígio o máximo possível, porque depois ele cresceria e não teria mais um brilho de ser só um garoto criando coisas.

“O Google é legal para quem sonha em construir carreira como programador, mas eu achava que ainda não precisava de uma carreira. Queria fazer meu nome, mostrar que não era só um prodígio. Queria criar projetos como profissão, não passar o dia programando.”

E criou. Em 2012, com o amigo e sócio Anderson Ferminiano, de 20 anos, abriu o Plaay, um serviço de streaming de música que já tem mais de 100 mil usuários. Ele garante que sua empresa é diferente do Spotify, o maior do ramo.

“Não vejo o Spotify como um concorrente. Ele é bem mais classe A e B. Eu quero a classe C e D. Você vê o Spotify chegando ao Nordeste? Quero pessoas fora desse 1% da galera publicitária, designer, jornalista. Quero um serviço grande, quero 20 milhões de usuários. Quero pessoas de verdade, quero a sua mãe ouvindo o Plaay”, diz.
Landing page do aplicativo Plaay: 100 mil usuários e mira nas classes C e D.

Atualmente, a empresa tem sede na Vila Mariana, e ganhou escalada depois de um patrocínio da Pepsi. Agora João tem uma bancada de sócio-investidores e oito pessoas na equipe, entre programadores, designers e especialistas em mobile. Aos 18 anos, ele publica selfies com a namorada, Camila Campos, nas redes sociais como qualquer garoto. Frequenta sempre eventos de tecnologia e negócios, como convidado ou plateia. Num desses, este ano, encontrou Fernando Henrique Cardoso e não resistiu à selfie. João segue a rotina de jovem empreendedor, mas em breve terá de lidar com a decisão de fazer ou não uma graduação superior. Ele tem entrada garantida nas melhores universidades dos Estados Unidos.

“Ainda não recebi um convite oficial, mas posso conseguir a qualquer momento. Meus amigos todos estão lá. Conheço o processo e a chance de ir morar lá fora é grande, só não sei se vou conseguir ainda. Se você tem mais de 19 anos é muito difícil entrar. Mas não quero isso agora. Tavez eu pule a faculdade e faça um MBA direto, lá você tem essa opção”, diz ele. Hoje, João prossegue, se pudesse ele iria para Berkeley e não faria faculdade de tecnologia, como o MIT (Massachusetts Institute of Technology).

“Tecnologia não é mais meu foco. Hoje em dia eu faço negócios. Vendo a minha empresa, vendo o que a gente faz. É disso que eu gosto”

Com um currículo turbinado, o rapaz, que tem milhares de seguidores nas redes sociais (além dos 84 mil no Twitter, mais 60 mil no Facebook), ainda tem um motivo para lamentar: o fato de ele não ter virado um cantor sertanejo de sucesso. “Acho que eu sou uma decepção para a minha família”, brinca. “Quando criança, eu sonhava em ser como o cantor Daniel. Só me vestia de xadrez e de chapéu. Cortava o cabelo igual o dele e já até cantei com a banda em um show. Minha avó acreditava tanto que eu seria um sucesso que até microfones bons ela me dava de presente”, diz.

O Brasil perdeu sim um cantor sertanejo e alguns refrões grudentos, mas ganhou um empreendedor de mente brilhante. Olho nele.

(Leia a matéria original aqui)

88. Carol Férres, a ‘pintora’ do Rio Pinheiros


Carolina Ferrés
, de 38 anos, não passava por um bom momento quando teve a – incrível – ideia de fazer uma galeria de artes às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo. Havia acabado de se separar do marido, com quem ficou 8 anos casada, e só queria mesmo sentir o ar puro no rosto. Vestiu uma roupa confortável, pegou sua bike (que é sua paixão desde sempre) e pedalou ciclovia afora. Nesse dia, chegou a duas conclusões: que aquele espaço era um de seus lugares favoritos na cidade e que era a sua missão pintá-lo com mais ‘vida’ e com mais cor.

Natural de Montevidéu, no Uruguai, Carol se mudou para o Brasil com os pais aos 7 anos de idade. Filha de agrônomo, passou a infância pulando de cidade em cidade no interior de São Paulo.

“Meus pais vieram meio que a contragosto pra cá. Eles faliram no Uruguai e resolveram tentar a vida no Brasil. Tiveram uma empresa de exportação de matéria prima. Meu pai adorava ser agrônomo. Hoje em dia, mais velho, ele tem um projeto lá no Uruguai que visa transformar esgoto em adubo e em gás. É interessante essa coisa. Nós sempre tivemos essa coisa em casa: de olhar e ver o que dava pra fazer para melhorar”, lembra ela.

Carol cresceu em meio a natureza, mas demorou a ‘se encontrar’ nessa área. Se formou em Desenho Industrial pela Unesp de Bauru, e se mudou, há doze anos, para São Paulo para trabalhar em editoras – passou pela ‘Arquitetura’, ‘Claudia’, ‘Trip’, entre outras publicações. Apesar do emprego fixo e dos freelas como designer, começou a perceber que seu lugar talvez não fosse ali, de frente para o Photoshop. Em 2010, deu um grande passo.

“Parei de trabalhar há 4 anos em editoras. Foi aí que comecei a me aventurar com essas intervenções em espaços públicos. Comecei vendo umas coisas que não gostava no quarteirão da minha casa. Muitas coisas incomodavam bastante. E aí resolvi dar um jeito de melhorá-las”, orgulha-se.

A primeira experiência de Carol com intervenções foi no parque ao lado de sua casa, o Parque das Corujas, na Vila Madalena. A designer se juntou com o coletivo Acupuntura Urbana e conseguiu desenvolver, às margens do Córrego das Corujas, uma galeria de arte e um mini pomar.

“Esse projeto foi legal porque nos reuníamos com as pessoas do bairro o tempo todo para entender o que elas queriam. Foi um trabalho intenso de mapeamento. Ficamos cerca de um ano participando dessas reuniões com os moradores para entendermos melhor o que eles esperavam de um espaço público”, conta Carol.

O projeto repercutiu na mídia. As boas intenções de Carol, porém, acabaram mal interpretadas – mas a ativista culpa a si própria pela confusão. Tudo porque, como ela mesma diz, ela teve a “infeliz ideia” de nomear o lugar como “Praia das Corujas”. Isso não agradou em nada a vizinhança.

“Acharam que se chamássemos aquilo de praia, ia virar um caos. Que todo mundo ia começar ir para lá para conhecer a tal praia e que o bairro viraria uma bagunça. Mas esse erro nosso na divulgação do projeto também serviu para que eu começasse a entender em que pé nós estávamos em questão de espaço público e em questão de convivência”, afirma. “Percebi que a gente é muito individualista aqui em São Paulo. Aquela repercussão toda me fez sentir estranha. As pessoas estavam com medo do que aquilo ia virar. O medo imperou e não deixou que continuássemos a mudar um espaço”, completa.

Mais experiência estava por vir. Em 2012, Carol investou em outro projeto, o ‘Quadra Amiga’. A ideia era escolher uma quadra como limitação e trabalhar para fazer daquele um lugar melhor.

Mais vizinhos. E mais conversa.

Carol fazia pesquisas com os moradores dos bairros participantes do projeto e descobria quais mudanças eles gostariam de ver acontecer. E descobriu algumas muito simples, que foram feitas com a ajuda de algumas pequenas incorporadoras das regiões trabalhadas: “Instalamos bancos, fizemos grafites na calçada. Também fizemos lixeirinhas e porta jornais. Todas as ideias eram desse tipo”.

No ano passado, a uruguaia também se aventurou com projetos como o ‘Almoço na Praça’ e o ‘Vem Pro Edite’, ambos com foco em praças. E ambos como uma espécie de boost para o seu currículo novo.

“Tudo isso que fiz foi só uma espécie de teste para mim. Quando eu saí do meu emprego, a ideia era de que isso, de intervenção, virasse um trabalho, uma espécie de produção cultural. Mas ainda não é uma profissão. Tem uma galera que está falando bastante de place makers. As pessoas querem trabalhar disso, mas ainda não sabem como fazer. Aí vira um pouco de ativismo”, afirma.

No domingo, dia 7 de dezembro, Carol estreia mais um projeto, desta vez o que mais a fez sentir realizada desde que largou o emprego como designer para se dedicar à intervenções em espaços públicos: o Viva Rio Pinheiros. A ideia de Carol é ocupar a lateral do rio com artes gráficas. Serão 8 artistas, entre grafiteiros, designers e artistas plásticos colorindo as paredes e os pilares entre a ponte do Jaguaré e a Vila Olímpia.

Para que o Viva Rio Pinheiros, que começa agora e se expande em 2015, saísse do papel, 96 pessoas e 4 empresas parceiras (Urban Arts, Liv, Salus e SuperInteressante) colaboraram para que o valor de R$ 16.675 fosse arrecadado no Partio, um site de crowdfunding cultural. “Gosto desse projeto porque finalmente poderemos ter algo maior, mais consistente, que dure mais tempo. Tudo o que fiz antes acabava assim que eu estava começando a pegar o jeito da coisa, assim que eu começava a entender melhor o processo. Com o Viva Rio Pinheiros teremos mais tempo para fazer tudo o que queremos”, diz.

A motivação de Carol foi levar as pessoas para perto do Rio Pinheiros e, assim, começar a causar nelas um olhar diferente em relação a ele. “Queria mudar essa coisa de que rio é uma coisa morta, que não tem jeito e queria fazer com que as pessoas tivessem vontadde de colaborar para que o rio voltasse a viver com abundância”, conta.

Com um projeto que visa aproximar pessoas de espaços ‘esquecidos’ e ‘maltratados’, Carol quer causar impacto nas nossas decisões. Para isso, não deixa de acreditar que a consciência do ser humano em relação a natureza vai mudar.

“Essa lógica de jogar o lixo na água não faz sentido. São Paulo surgiu dos rios e nós acabamos enterrando boa parte deles com lixo. Eu acho que uma hora a gente vai ver o que fez com os rios e esse movimento de cuidar deles vai crescer. Não quero acreditar que seja só eu que estou interessada nisso. Tem muito projeto de cidade, muita gente pensando igual. Se todo mundo se unir, a gente consegue mudar muita coisa”, se empolga.

Numa troca de mensagens com um amigo, Carol definiu de forma mágica a relação do ser humano com a natureza.

“Gosto de fazer uma analogia de quando começamos olhar a nossa sombra: no início parece horrível, a gente descobre que não é assim tão limpinho, que a gente faz muitos cocôs pra todo lado na nossa vida. E, como a gente não quer encará-los, a gente esconde, finge que não vê. Mas eles estão aí, e não é porque a gente não vê que eles não existem. Pelo contrário, acabam prejudicando muito mais a nossa vida. E uma hora a coisa toda explode, porque fomos acumulando, acumulando… Como fazemos com o nosso cocô que vai pro rio. Pra não encarar o problema, jogamos justamente aonde nasce a vida: a água, os rios – e assim, matamos a nossa própria existência .

Mas, apesar do mau cheiro, o cocô – assim como a nossa sombra – pode ser muito bem aproveitado, se a gente descobrir pra que ele serve. E serve pra muita coisa! Já viu como funcionam os biodigestores? Além de fazer o cocô virar adubo, eles geram energia. Mas esse tipo de reforma depende de todo mundo, não só do governo. Essa é a parte mais difícil. Porque os bairros deveriam se organizar para exigir ETEs (estações de tratamento de esgoto). Os prédios deveriam se preocupar com isso, e por aí vai. Mas é pra isso que estamos aqui, afinal. Pra evoluir como espécie e como grupo.”

Leia a matéria no site do Projeto Draft.

87. O James Dean de Connecticut

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Cheguei em Shrewsbury, no subúrbio de Massachussets, depois de quatro horas de viagem numa van que eu, que não sei nada de carros, confundiria facilmente com um caixote de leite ambulante. Era verão de 2011 em terras americanas, mas mesmo assim, não foi fácil, muito menos confortável, deixar a cama quentinha às 5 da manhã no apê alugado na 47 St., do ladinho da famosa e iluminada Times Square, em Nova York, para ir até a 168 St., em Queens, mais ao norte da cidade e fora da hypada Manhattan, para explorar novos lugares.

Mas, naquela manhã, eu estava de pé cedo por um bom motivo: fazia cinco anos que uma amiga brasileira não via o pai, que imigrara para os Estados Unidos pra tentar uma vida melhor e agora trabalhava em duas lojas, e a minha missão nesse rolê era justamente a de existir sendo o que eu já sou. Eu precisava fazer companhia para eles e eu precisava também ser a pessoa que não deixaria que o silêncio – e talvez o climão – dominasse a situação. E isso sempre foi fácil pra mim. Eu falo mais do que um ser humano normal e, sim, eu faço perguntas demais (às vezes bem pessoais, né, não, Paula?).

O caminho para o ponto de embarque, que durou cerca de 30 ou 40 minutos, me deixou um pouco incomodada. É que a falta de conversa constante me deixa muito sem graça. Mas eu entendi: pela manhã, minha amiga sofre de mau humor. Ela não fala, só faz cara de quem não está gostando demais. Mesmo sabendo dessa condição, eu resolvi soltar o mesmo comentário de sempre, sobre o metrô sujo daquela cidade.

– “Olha que invasão de ratos. Afe, que nojo, ein!“, eu reclamei de levinho.

Eu tenho até medo de dizer isso em voz alta (ou registrar isso num post de blog), mas não, Nova York não é o meu tipo de cidade favorita. Aquele lugar, que eu via como uma espécie de São Paulo, só que cheia de turistas segurando câmeras, me causava uma sensação ruim, uma espécie de ânsia de vômito. A bagunça, os carros, as buzinas intensas, as mulheres correndo de salto alto e os malandros elogiando suas bundas em tudo quanto é canto não me agradavam. Foi durante essa visita à cidade que eu, enfim, me descobri como uma moça praiana. É de areia que eu gosto pra valer, de mar. É de parasailing, de bicicleta, de skate. Gosto de ver o por do sol de um ponto bacana de frente para o mar e gosto de voltar morenaça das férias. E isso é impossível em Nova York. Deve ser por esse motivo que topei sair de lá por uns dias quando fui.

Como adiantei nesse post, eu dividi a van-estilo-caixa-de-leite com mais 14 pessoas – mas nela teoricamente só cabiam 13. Fui espremida no banco do fundão com um coreano de uns 19 anos, que parecia muito assustado comigo, sei lá por qual razão.

– “Só porque eu estou morena alaranjada depois de férias em Miami?”, eu pensei. Eu havia passado 15 dias de férias em South Beach depois de um ano de muito trabalho.

Entrava cidade, saía cidade, e o coreano não relaxou. Ele passou o caminho todo se esquivando de mim e pareceu muito aliviado quando, duas horas depois do começo da viagem, fizemos uma parada em Hartford para comer num McDonald’s minúsculo.

Hartford é a capital de Connecticut e tem 124 mil habitantes. A Wikipedia também me contou que a cidade é a ‘Capital Mundial do Seguro’. E o que eu sentia? Que não estava num lugar tão evoluído assim quanto o Google me contava. Ou talvez que eu não estava numa área muito habitada.

Ao entrarmos no fast-food, um dos únicos estabelecimentos “povoados” daquele lugar, eu dei de cara com um jovem a la borracheiro, a la James Dean. Cabelo bagunçado, olhos claros, camisa toda sujinha e um “Q” especial. Tocava música country desconhecida – depois fui descobrir que era Zac Brown Band – e rock bem das antigas e eu só pensava que, a qualquer momento, aquela cena se transformaria em algo bem mais bizarro. Não era medo não. Era um pressentimento de que, por trás daqueles caixas, saíriam pessoas com seus chapéus de palha e começariam a encenar uma espécie de show. A sensação era de que um High School Musical do interior se formava.

O James Dean de Hartfort era o centro das atenções no local. Falava baixo, de forma sexy. Jogava o cabelo de um jeito que homem normal nenhum faz. Mordia a lateral da boca despretensiosamente, parecia nem ligar para o efeito que causava nas mulheres. E em mim. Eu comecei a viajar ao imaginar como era a vida daquele rapaz naquela cidade e, maluca, cheguei a uma conclusão: eu tinha certeza que, nos bolsos daquele jeans sujos, ele tinha um pocket to Robert Frost, um dos meus autores favoritos. Robert Frost era a cara dele!

O James Dean pediu um Big Mac, único lanche do Mc, além do cheeseburger, que eu como. Sentou num canto com um cara que chamava de ‘tio’ e um garoto de uns 8 anos, todo sardentinho que, vestia macacão e que, só pela cara, eu sabia que era o mais bagunceiro da escola. Eles conversaram um pouco ao comer seus sanduíches e, assim que terminaram as batatas, começaram a se provocar, rindo alto.

Eu estava hipnotizada pelo James Dean, até que, em inglês, ouvi o que ele disse. Ele olhou para a criança e sugeriu:

“Você acha ela gostosa? Então passe a mão no seu pinto da próxima vez que ela olhar pra você”

Quase vomitei meu picles. Peguei minha coca grande nessa mesma hora e chamei todo mundo pra voltar pra van. Precisei de um ar. Passei o caminho todo até a cidade final pensando em como o mundo está mesmo todo errado – e em como nós, seres humanos, precisamos dar um ‘stop’ assim que a nossa imaginação começa a ser too much.

86. Daniel Muniz, que nunca teve carteira assinada

Daniel Muniz
Conversar com Daniel Muniz, de 33 anos, é — no mínimo — uma aula de como aproveitar boas oportunidades. Com sotaque gostoso e motivação exalando pela voz, o carioca parece ter décadas de experiência quando o assunto é criar, planejar e desenvolver novas ideias. E talvez seja mesmo esse o seu diferencial: o jovem empresário, criador da DCanM, uma empresa de soluções para a internet com ênfase em mobile, sabe a que veio há muito tempo, desde o começo dos anos 90, quando ainda morava com os pais num condomínio de dois edifícios na cidade do Rio.

“Comecei aos 12 anos vendendo geladinho para os amigos do meu prédio”, conta. O negócio deu tão certo que, com o lucro, o “espertinho” Dani correu para o shopping para comprar um videogame. Objetivo alcançado? Não. Em seguida, o garoto também começou a alugar o novo brinquedo para que as outras crianças se divertissem.

Foi aí que caiu a ficha. Foi aí que nasceu uma mente fissurada em empreender.

Aos 15 anos, no auge da adolescência, lá estava Daniel, agora ajudando a mãe a tocar uma loja de bijuterias. Apesar de se identificar com o que fazia, ele não se sentia muito à vontade na pele do único garoto em um ambiente repleto de mulheres endoidecidas por acessórios. “Eu era mais novo e achava meio estranho ser um rapaz vendendo bijus”, ri ao relembrar da época em que cursava o ensino médio e trabalhava com Dona Ana.

Três anos se passaram e Daniel, um apaixonado também pela rotina de esportes que o Rio de Janeiro proporcionava (ele ainda é maluco por corrida e natação) viu-se em meio a despedidas. Ele estava embarcando para a Pensilvânia, nos EUA, para cursar a tradicional Edinboro University, onde de formou a atriz Sharon Stone, por exemplo. Em 2004, terminada a faculdade de Administração de Empresas com especialização em Economia, ele abriu a sua primeira empresa que, a princípio, fazia turismo universitário.

“Com dois sócios, criei uma empresa que hoje já levantou mais de 15 milhões de dólares em bolsas de estudo para brasileiros nos EUA. No começo, o que eu fazia era basicamente trazer o time de futebol de Washington para passar 15 dias no Brasil, fazendo pré-temporada. Eu levava os garotos para jogar no Morumbi, enfrentar o time juvenil do São Paulo e apresentava o país para eles”, diz, referindo-se ao Jogada Nota 10, projeto que, atualmente, visa proporcionar oportunidades para estudantes-atletas brasileiros de continuar tendo um estudo de alto nível ao mesmo tempo que pratica um esporte.

A operação de Daniel foi vendida aos sócios, Ricardo Silveira e Ricardo Villar, no ano seguinte, e ele começava então a dar um boost em seu atual estilo de empreender: levantar dinheiro para novos negócios através da venda de antigos negócios. “Tudo o que eu fiz até hoje foi dessa maneira. Eu montava coisas e depois vendia para ter dinheiro para investir em outras ideias”, afirma.

Buscando novas especializações, Daniel se mudou, em 2005, para Londres, onde cursou um mestrado em Empreendedorismo. Pouco tempo depois, apesar de nunca ter tido a carteira assinada em nenhuma empresa — nem no Brasil, nem nos EUA —, assumiria o cargo de diretor de novos negócios de uma gigante de análise de mercado, a Business Monitor International. “Nunca tive a carteira assinada”, diz, orgulhoso. “Mas eu ganhava bem nessa empresa, então consegui guardar para os projetos futuros”, diz.

Alguns meses antes de voltar ao país, em 2009, viveu uma das experiências mais importantes de sua vida: passou dois meses no Nepal meditando e fazendo aula de pintura Thangka, uma arte budista que utiliza tintas a base de pigmentos orgânicos em tecido de algodão. Foi uma experiência liberatora e inesquecível e fez com que Daniel voltasse ao Brasil renovado. E ele chegou mesmo com tudo: investiu em um restaurante no Rio, mas logo vendeu sua parte, já que não obteve satisfação pessoal. “O maior patrimônio que nós temos é o tempo. Ninguém quer investir tempo em algo que não faça essa pessoa feliz”

Daniel mudou-se para São Paulo e teve a ideia de lançar um dos projetos que mais o inspirou até hoje, e também o que mais o decepcionou. Ele montou, sozinho, uma indústria de chá gelado chamada VenT. “Esse era o que eu chamava de ‘Meu projeto Natura’: eu pensava em fazer o bem e viver do meu sonho e, em 20 anos, esse sonho compensaria financeiramente. Mas eu errei tudo”, admite. Daniel diz que faltou experiência e pesquisa. O empreendedor não levantou dinheiro de investidores e tentou terceirizar a área de produção, que era a coisa mais difícil. Hoje em dia, ainda chateado, ele conta que tentou se envolver em um mercado onde não tinha nenhum conhecimento técnico e que, por isso, se deu mal.

A má experiência fez Daniel perceber que o que precisava mesmo era estar preparado para os momentos difíceis. “O empreendedor é testado o tempo inteiro. Sua capacidade de liderar, de fazer acontecer, sua dedicação, sua paixão… Empreender é uma montanha russa, com altos e baixos, vitórias e erros. Se o objetivo for somente retorno financeiro, em algum momento de adversidade você vai desistir! Tem que amar o que faz”.

Com o episódio do VenT, Daniel caiu na real: não queria mais investir em negócios tradicionais. Resolveu entrar para o mercado digital e, em 2011, deu vida a DCanM (Design, Concept and Business Architecture + Mobile). A empresa já criou e desenvolveu projetos para, entre outros clientes, a Volkswagen, a Nivea e o Jornal O Globo, e hoje tem três soluções de sucesso como seus carros-chefe: os cases VaiMoto, PrintPic e TilTheRace.

O VaiMoto é um aplicativo de logística urbana que reúne mais de 3 000 motoboys (e alguns ciclistas) e 8 500 clientes em seu banco de dados realizando entregas diárias por toda São Paulo, “com segurança e agilidade”. Como investimento, foram aplicados no negócio mais de 2 milhões de reais. O PrintPic é um aplicativo de impressão de fotos, enquanto o TilTheRace é uma solução que faz uma espécie de contagem regressiva individual para as principais provas de corrida do rua do mundo. “Esse último tem muito a ver com a minha paixão por triathlon e por corrida. Estou indo para o meu terceiro IronMan”, afirma, sobre a famosa competição de longa distância da modalidade.

Os planos de Daniel como empreendedor para os próximos anos já estão traçados. “Em 5 anos, quero estar empreendendo, envolvido com novas tecnologias, novas lideranças e novos talentos. Em 10, quero me dedicar mais ao desenvolvimento de novos empreendedores. No longo prazo, pretendo colaborar mais com novos talentos que lideram novos projetos, do que necessariamente estar liderando um ou mais empreendimentos”, diz, confiante.

Já na vida pessoal, Daniel só quer continuar sendo um bom pai. Ele é casado e tem uma filha, a Duda, de 4 aninhos. Se ele quer que a garotinha siga os ensinamentos dele? Claro. “Ela já prepara biscoitos e gelatina para vender e junta dinheiro para comprar seus objetos de desejo. Também já participou de três corridas, o que me deixa muito feliz”, diz ele. O ensinamento está sendo repassado. Nesse ritmo, em breve faremos um perfil da pequena Dudinha Muniz por aqui.

(Clique para ver a matéria original)

Uma vontade enorme de… estar aqui!

Calma, respira. Você está no lugar certo. Esse ainda é o blog 1001 pessoas que conheci antes do fim do mundo, um lugar onde você lê (quase) todas as aventuras que eu, Aline Vieira, vivo diariamente, além de também conhecer as pessoas incríveis que ajudam a mudar, pelo menos um pouquinho, a minha vida.

Hoje eu resolvi sair do formato ‘número e nome da pessoa’ ali no título porque estava com vontade de… estar aqui, apenas. Explico melhor, me permita.

Eu sempre vi graça em conexões. Aos 13 anos, quando ganhei meu primeiro computador, eu achava incrível ter que esperar até a madrugada, quando o ‘sinal’ era mais barato, para entrar na internet. Ficava animada de ouvir o barulho da ligação sendo feita, adorava as propagandas do iG com aquele cachorrinho fofo (que me garantiu o meu primeiro emprego alguns anos depois!) e também colecionava aqueles CDs de instalação dos portais que serviam mais mesmo é para eu decorar a minha árvore de Natal no fim do ano.

Nesta época, além de me conectar à internet, eu comecei a me conectar também com pessoas. Foi lá naquele Habbo Hotel, um joguinho/chat em que você passeia por vários ambientes de um hotelzinho pixelado e conversa com uma galera dos quatro cantos desse mundão. Levo vários desses “amigos”, que eu conheci nos 4 ou 5 anos que eu ‘fiz um intercâmbio’ nesse jogo, no coração. Porque foi com eles que entendi uma porrada de coisas sobre se relacionar (não tenho vergonha de dizer que essas pessoas foram minhas melhores amigas por um bom tempo). Quando esse jogo já não era a minha coisa favorita, eu me descobri de verdade. \o/

Eu era nova demais quando entrei na faculdade de jornalismo. No meu primeiro dia naquele quinto andar da Universidade São Judas Tadeu eu ainda era muito tímida, conversava com pouca gente e quase morria de vergonha toda vez que tinha que ir para rua fazer uma reportagem. Mas, nos anos seguintes, quase tudo mudou. Eu finalmente me libertei e me abri para as pessoas. Virei quem eu sou hoje – esse ser que todo mundo pede para dar uma diminuída no ritmo porque fala e pergunta demais.

Por que estou escrevendo esse post? Porque é de conexões que a humanidade vive. É por causa dela, dele e de outros tantos que eu também existo como pessoa. E é por isso que, um mês antes de o 1001 pessoas completar seus 2 anos de vida, eu andei pensando em como fazer para me conectar mais com o blog e, ao mesmo tempo, continuar trazendo os perfis de pessoas (que são a grande atração dessa página).

Esse formato atual, apesar de ser leve, divertido e mais real possível, me afasta um pouco de vocês, leitores. Porque vamos falar a verdade: eu trabalho o dia inteiro igual todo mundo, volto pra casa exausta igual todo mundo e, por mais que eu queira, não levo uma vida tão sensacional como eu gostaria de levar. Sendo assim, não conheço uma pessoa por dia para apresentar no blog. Como então eu vou conseguir manter em vocês o hábito de me ler se eu posto perfis com uma frequência de gente normal ao invés de com uma frequência de blogueira de moda?

A solução: para estar mais aqui, vou começar a postar outras coisas, mas que estão diretamente conectadas ao tema do blog. A partir de agora, esse blog é sim um blog de pessoas, mas também é um blog sobre viagens e sobre literatura (aposto que você que lê a página também curte esses assuntos, né?).

Espero que vocês curtam os próximos passos desse 1001 pessoas. Assumo o compromisso de continuar fazendo tudo com o coração. 🙂

Um beijo,

Aline